segunda-feira, 22 de março de 2010

UNICAMP: UM PÓLO DA SUPER-EXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES TERCEIRIZADOS

Mário Martins, trabalhador do Arquivo Edgar Leuenroth - Unicamp.



A biblioteca do IFCH foi inundada, em Março de 2009. A ironia é que a biblioteca foi salva por estudantes que estavam numa festa. Festas que são proibidas na Unicamp. Inclusive, constantemente há estudantes sendo molestados por vigilantes, ameaçados por diretores e pela reitoria por causa de festa. A nossa insubstituível biblioteca foi inundada por descaso e incompetência de uma empresa terceirizada. Empresa, que semanas antes, cometera o mesmo erro, deixando sem cobertura a pós-graduação e a livraria. Até hoje ninguém foi responsabilizado. E a firmeca, provavelmente, está livre para cometer o mesmo descalabro em qualquer outro lugar. Na época, conseguimos um lamento quase agônico do nosso vice-diretor: “Mais uma vez, uma licitação na universidade resulta em prejuízo ao Instituto”. Mas como diria Aldir Blanc: “Só quem tentou sabe como dói vencer Satã só com orações”. Eram e são necessárias ações, mobilização política, senso de responsabilidade histórica.
Há uma ampliação que há tempos começou na biblioteca. Inclusive, esta parte inacabada está cheia de livros, salvos da inundação de Março do ano passado, em 2009. Há pelo menos um ano está rolando esta tal ampliação. Há prédios aqui, como do Arquivo Edgar Leuenroth que abriga um dos maiores acervos da história do movimento operário e social do mundo que ficou quase oito anos sendo construído, tendo que sobreviver a falências e desistências destas empresas terceirizadas. E teve parte do seu acervo correndo risco de destruição por incompetência de empresa terceirizada. Mas isso é generalizado em todas as construções da Unicamp depois que acabaram com o setor de obras, formado por funcionários públicos, guiados por um estatuto de servidor público.
Hoje, dia 9 de Março de 2010, os operários da terceirizada estavam fazendo um protesto, fechando os portões, para impedir a saída de um caminhão, exigindo que fossem pagos, pois com a falência da firma não receberam o salário. Como sempre, os operários mobilizados ali, poucos, 9 ou 10 deles, representavam a cultura, o progresso. Do outro lado, a polícia, a burocracia universitária, representando o atraso, o imobilismo, a perplexidade. Além desta crueldade com os operários, precisamos dizer: A Unicamp é dominada pelas empresas terceirizadas. Nossos diretores são reféns destas nefastas empresas. Em todos os setores da vida na Unicamp, hoje, avançam e imperam os contratos capitalistas, enterrando um projeto histórico de gestão pública. Nosso patrimônio está sendo vigiado por empresas de vigilância, terceirizadas, que abusam da precarização, demitindo por qualquer motivo, com número muito aquém do necessário, praticando uma super-exploração do trabalho. Claro que com a anuência da Reitoria e da alta burocracia, além de muitos funcionários corrompidos pela selvageria da ideologia capitalista. No momento em que os operários fechavam os portões da obra de ampliação da biblioteca e protestavam para receber seu pagamento, o chefe da segurança da Unicamp cinicamente defendia as terceirizadas, dizendo assim: "os terceirizados trabalham sem interrupção, não ficam indo ao banheiro ou querendo café e lanche, não reclamam ou faltam e, se fossem funcionários públicos, ficariam apelando para seus direitos". Este chefe da segurança da Unicamp, este crápula é um funcionário público com estabilidade e direitos. Sentado no trono de seus régios salários de chefete e capataz, parecia um capitão do mato, cheio de si para humilhar trabalhadores totalmente lesados no seu direito mais elementar, dentro do capitalismo, que é receber seu salário.
Mas estes empresas terceirizadas põem em risco o patrimônio que é do público. Não podemos deixar patrimônios históricos e humanos em mãos de firmas que não têm qualquer responsabilidade histórica. No máximo responderiam por danos materiais, de forma monetária. Nossos arquivos e bibliotecas têm valores que são patrimônios únicos da humanidade. Não há reposição possível.
A Universidade exige de seus funcionários, por estatuto, zelo com a coisa pública, vigilância pelo que é patrimônio público, e a lei e o estatuto cominam sobre os desleixos de funcionários públicos. Com a empresa privada há uma relação de contrato e não de estatuto. São aparatos culturais diferentes. O primeiro baseado no dinheiro, o segundo, o do estatuto, é regido pelo compromisso, pela vocação, enfim, por responsabilidade política. Por outro lado, seríamos as principais vítimas do incêndio no Arquivo Edgard Leuenroth, vítimas da biblioteca inundada, vítimas dos atrasos e má qualidade das obras. Como calar vendo um caríssimo ar-condicionado [R$ 575.299,00, dinheiro FINEP] com uma dimensão desnecessária e que não funciona até hoje, ou melhor: se ligado, inunda o Arquivo Edgard Leuenroth, como já inundou ou, no mínimo, umedece o local. Ou de janelas que, desde sua instalação, não podem ser abertas senão caem. Tudo pago com dinheiro da PETROBRÁS, muito bem pago, com certeza.
Estas empresas terceirizadas falem. Esta é a regra na Unicamp. Em oito anos de construção do prédio do Arquivo Edgar Leuenroth várias faliram ou desistiram de tocar a obra que tinham ganhado na licitação. Prazos são meras formalidades.
Uma palavrinha sobre vigilância e segurança. Já aconteceram vários seqüestros relâmpagos. No último destes, eram duas biólogas. Chamam atenção para aqueles e aquelas que lutam contra a violência contra a mulher. A Unicamp, com a vigilância terceirizada, mal preparada e mal paga, indica-nos perspectivas trágicas. Bibliotecas e Arquivos sem vigilância interna, sem vigilância preparada, sem brigada anti-incêndio, é um território de ninguém. Não esqueçamos que, no prédio velho do Arquivo Edgard Leuenroth, um incêndio poderia ter desaparecido com o maior conjunto de história social da América. E, para nós brasileiros, o mais importante do mundo. Sem vigilância, sem manutenção preventiva, sem brigada de combate a incêndio, que futuro nos espera?
Isso parece piada. Isso é um desleixo. Nossas lideranças acadêmicas e a alta burocracia parecem que foram tomadas pela ineficiência, descaso e irresponsabilidade, fruto da cultura das empresas terceirizadas que impera neste capitalismo em crise, e reinam também, por aqui. A ideologia dominante é a ideologia da classe dominante e a fração da classe dominante que manda na Unicamp são as empresas terceirizadas. A Unicamp, sob a batuta das terceirizadas, cultua a precarização, o jeitinho, o lucro a qualquer custo, a super-exploração do trabalho, a violência das demissões. Além de uma questão política é um questão cultural. Nossos valores de cuidar bem da coisa pública estão indo embora, da mesma forma que falem, e vão embora, deixando nossa biblioteca com milhares de livros amontoados em local inadequado e prejudicial. Estas firmecas vêm até aqui, super-exploram os trabalhadores, fazem contratos com preços exorbitantes, lesam os interesses do que é propriedade do público que paga os impostos e vão embora, sem serem responsabilizadas. A situação é escandalosa, mas não há escândalo algum. Impera uma espécie de "calmaria de pantanal". Há muitos "marxistas" na Unicamp, mas parecem monges que fizeram voto de silêncio e estão absorvidos em fazer uma exegese hermética do marxismo. Outros mais descarados deixam claro que o marxismo na Unicamp, ainda permite fazer uma modesta carreira acadêmica. É impossível não se lembrar do texto do professor Maurício Tragtemberg, A DELINQUENCIA ACADEMICA.
A carta dos professores do IFCH de 2009, dirigida à reitoria, diz que o instituto agoniza. Coisas muito mais profundas putrefazem no instituto e na Unicamp. A Unicamp foi dominada por um sistema perverso, a cultura do jeitinho, a cultura da irresponsabilidade diante do que é do público. O nome disso é precarização, terceirização e fundações. Este “jeitinho” é a marca registrada das fundações. Elas são criadas exatamente para isso, para dar um drible na lei, na constituição e nos acordos trabalhistas. Os governos e seus deputados criam leis para isentar certas categorias de trabalho da obrigatoriedade constitucional, desde 1988 de só se ingressar no serviço público através de concursos públicos. Estas fundações são usadas para rebaixar o salário das categorias, para implantar um regime de trabalho precarizado e para praticar a super-exploração, isto é, aumentar o ritmo do trabalho. Também são uma forma de terceirização, com o agravante de ser também uma forma de privatização do que é público. O caso FUNCAMP, na Unicamp, que cresceu na época da inflação alta, para poder movimentar o dinheiro em jogatinas financeiras que são proibidas às instituições de direito público. Mas o último episódio merece de nós um repúdio e uma cobrança, em todos os momentos: o descalabro que foi a FUNCAMP ser condenada pela justiça por fazer centenas de contratos juridicamente nulos. Mas o doloroso, cruel mesmo, foi que funcionários de 10 a 16 anos serem demitidos sem direito algum e, para receberem alguma coisa, fizeram um acordo. Mas, e os direitos de aposentadoria? E aqueles que adoeceram e envelheceram de tanto trabalhar sob as exigências desse modelo de super-exploração? A FUNCAMP (Fundação da Unicamp) foi condenada, mas não responsabilizada. Os reitores, desde a década de 80, que a criaram e continuam, até hoje, usando esta fundação para precarizar os serviços na Unicamp, continuam aí, vivos, ricos e ocupando cargos públicos, como Carlos Vogt (secretário do governo Serra), Carlos Brito (um espécie de czar da FAPESP),
O Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp é dirigido pelo PCdoB há mais de uma década. A Associação dos Professores da Unicamp, que tem uma sede que é um palacete dentro da Unicamp, parece que tem gente à direção que se diz de esquerda; o DCE é dirigido, há décadas, por petistas que hoje são do PSOL. É quase uma multidão de militantes que se dizem de esquerda. Há na Unicamp, como já foi dito, um contingente de “marxistas”, e mesmo um CEMARX (um centro de estudos marxistas). Mas por que diabos este silêncio todo? Mas por que então vivemos, silenciosamente, transitando entre bancos, laboratórios de empresas capitalistas, trombamos com operários super-explorados, com alojamentos precários, sendo demitidos por qualquer coisa, sem mesmo receber seus direitos? Ou mesmo vendo professores criando fundações, fazendo núcleos para angariar dinheiro para projetos próprios ou de grupo. Ou temos que lidar com uma burocracia autoritária e um estatuto da Unicamp, filhote da ditadura, que incorporou, quase sem mudar a redação, o 477, que a ditadura pariu para punir estudantes depois de 1968. Ou uma comissão processante só para punir funcionários. Por que esta festa capitalista selvagem em meio a tantos “marxistas”, petistas e Psolistas? Como calam, como podem esses “marxistas” deixar de levantar um ais? Parece mesmo que vivemos num mundo do faz-de-conta.
O intuito deste texto não é fazer mais um choramingo, mas um chamamento. O que acontece no IFCH acontece em todo o Campus. Vivemos sob o poder das empresas terceirizadas e da má qualidade de serviços, de riscos e irresponsabilidade da terceirização no serviço público. Um chamamento a pessoas socialistas e sindicalistas para nos unirmo-nos e criarmos uma grande frente contra a terceirização que super-explora, que precariza, que cria uma rotatividade absurda, que cria um clima de terror, desorganização política, que dá poder a chefete que implanta “leis” de capataz de fazenda, que exige produção até a exaustão. E um chamamento às pessoas que têm qualquer referência com a cultura humanista, para que nos unamos para impedir que trabalhadores sejam tratados, aqui na Unicamp, como peças descartáveis. Que direito mais elementar há que receber os salários, que estes sejam garantidos? Que protestemos contra alojamentos e vestiários precários, que permitem amontoar as trabalhadoras e os trabalhadores das firmas terceirizadas, pois se fossem funcionários públicos se uniriam e protestariam. Um chamamento para que professores, estudantes e mesmo funcionários públicos não aceitemos o papel de senhorezinhos, servidos por trabalhadores precarizados e mal pagos – é um chamamento para que deixemos o cinismo perverso e elitista de lado e tenhamos vergonha do nosso papel de capatazes e até, muitas vezes, beneficiários desta nefanda precarização da mão-de-obra.
Até quando as chamadas esquerdas serão coniventes com esta brutalização? Não sabemos. Objetivamente é notório que este modelo se esgotou, e que o patrimônio do público e o próprio serviço público chegaram muito longe na precarização. A saúde pública está numa situação lastimável. Aqui, na Unicamp, caminham para privatizar, ou criar uma fundação, para o HC. O ensino médio público não existe. É um acinte. Ele serve para empobrecer o pobre. Para piorar, este ano, será ano eleitoral, onde estas mesmas esquerdas sairão à cata de votos. Mas os Marxistas, que honrarem a tradição, aproveitarão este momento para acelerar a luta concreta dos operários, trabalhadores e de todos os oprimidos.

visite o endereço www.jornaldoporao.wordpress.com para mais detalhes sobre a terceirização na Unicamp.

A terceirização escraviza, humilha e divide

Heber Rebouças

A terceirização do trabalho “surge”[1] nos Estados Unidos, logo após a eclosão da Segunda Guerra Mundial, com o desenvolvimento acelerado das indústrias que tinham que concentrar a sua produção em armamentos – atividades consideradas essenciais – e passaram a delegar algumas atividades – atividades de suporte à produção armamentista – a empresas prestadoras de serviços (este fenômeno ganhou rapidamente destaque no cenário internacional, sendo adotado, em maior ou menor medida, por todas as grandes empresas). No Brasil, a terceirização do trabalho chegou à década de 1950 junto com as grandes indústrias automotrizes que com o discurso de qualidade, agilidade e eficiência, introduziram o conceito de se dedicar apenas à essência do negócio, neste caso, a montagem de veículos, sendo as demais atividades[2] transferidas a terceiros, inclusive a produção de peças[3]. Cabe destacar que a técnica da terceirização do trabalho começou a avançar no Brasil com maior intensidade no final dos anos de 1980 e início de 1990 (este período é marcado por inúmeras transformações, dentre elas: a redução, por parte do Estado, com os gastos sociais [saúde, habitação, educação, etc.], a abertura econômica, a aceleração das privatizações [são exemplos: o Programa Nacional de Desestatização instituído no governo Collor e o Conselho Nacional de Desestatização instituído no governo Fernando Henrique Cardoso]), a desregulamentação e flexibilização do mercado de trabalho e das relações de trabalho, o desmantelamento de conquistas sociais e democráticas, cujos impactos foram e continuam sendo: o aumento dos índices de desemprego, a estagnação ou depreciação nos salários dos trabalhadores, a concentração de renda, – e, por conseguinte, o aumento da desigualdade social – o aumento do trabalho informal, temporário, precário, terceirizado, etc. Todos estes elementos, aqui brevemente sintetizados, refletiam as transformações iniciadas com a crise estrutural do capital em meados da década de 1970, cujos contornos observados no campo econômico ficaram conhecidos como reestruturação produtiva (toyotismo, ohnismo, acumulação flexível, entre outros) e no campo político-ideológico como neoliberalismo.

Pode-se dizer, portanto, e diante das transformações no mundo do trabalho, que o discurso hegemônico no meio empresarial – frente à crise iniciada na década de 1970 – tem como tema central a busca por competitividade, a sobrevivência e a necessidade de inserção na nova ordem globalizada da economia cuja técnica da terceirização do trabalho é apresentada como possibilidade de melhoria e desenvolvimento (seja no setor público e/ou privado, seja no setor industrial e/ou de serviços); sinônimo, assim, de modernização, eficiência, especialização, agilidade, ganhos em qualidade e produtividade. Entretanto, o que se observa, de fato, é algo absolutamente contrário a este modelo idealizado pelos grandes capitalistas e setores da burguesia nacional e internacional.

Decerto, terceirizar significa flexibilizar, flexibilizar significa precarizar, isto é, legalizar o ilegal; logo: terceirização significa precarização. São nefastas as medidas provisórias, os projetos de lei, as emendas à Constituição que retiram, sistematicamente, os direitos e flexibilizam os contratos de trabalho. Nesse âmbito, a terceirização do trabalho sempre se apresentou enquanto sinônimo de trabalho menos qualificado, trabalho sem registro em carteira (vínculos empregatícios que se tornam mais precários com o desenvolvimento das formas instáveis de contratação da força de trabalho), jornadas mais extensas, redução de salários, perda de benefícios (isto é, o não pagamento de férias, o não pagamento de adicional de insalubridade, entre outros), deterioração das condições de segurança, saúde e higiene no ambiente de trabalho, entre tantos outros elementos - como o assédio moral, a perda do respeito, etc.

Ademais, a terceirização do trabalho aparece não somente no plano econômico como forma de redução de custos, como observado acima, mas também enquanto estratégia política, à medida que institui uma fragmentação objetiva e subjetiva entre os trabalhadores de “segunda categoria” (os trabalhadores terceirizados), que se distanciam dos trabalhadores de “primeira categoria” (os trabalhadores efetivos). Fragmentação objetiva frente à inviabilidade de participação e atuação conjunta com os trabalhadores efetivos em greves e assembléias, diminuindo, assim, a força política desses trabalhadores; e a fragmentação subjetiva frente ao próprio não reconhecimento diante de seus pares, isto é, dos trabalhadores efetivos. Desta forma, a terceirização do trabalho contribui, decisivamente, para dissolver qualquer identidade de classe.

Neste cenário, é fundamental lutar pela unificação das fileiras da classe operária, isto é, lutar, como primeiro passo, pela imediata efetivação dos trabalhadores terceirizados. Especialmente, tendo clareza de que o trabalho é central no processo de produção de mercadorias, e que a classe operária é a única classe capaz de tomar em suas mãos o rumo da história, tornando-se o sujeito capaz de varrer o velho e criar o novo.

ANEXO:

Tipos mais comuns de terceirização do trabalho[4]:

1 - Trabalho doméstico ou trabalho domiciliar – com a subcontratação de trabalhadores autônomos em geral, sem contrato formal, prática mais recorrente nas empresas dos setores mais tradicionais da produção industrial;

2 - Empresas fornecedoras de componentes e peças – é a subcontratação na forma de rede de fornecedores, que produzem independentemente, isto é, que têm a sua própria instalação, maquinaria e mão-de-obra, embora sua produção esteja voltada, quase que exclusivamente, para as grandes empresas contratantes;

3 - Subcontratações para serviços de apoio – é a subcontratação de empresas especializadas, prestadoras de serviços realizados, em sua maioria, no interior das plantas das contratantes;

4 - Subcontratações de empresas ou trabalhadores autônomos nas áreas produtivas/nucleares – neste tipo podem ocorrer sob duas formas: a) realização do trabalho no interior da planta da contratante, e b) realização do trabalho fora, na empresa contratada;

5 - Quarteirização – empresas contratadas com a única função de gerir os contratos com as terceiras.



[1] As pequenas e médias empresas sempre utilizaram serviços de terceiros para suprirem as suas carências. Portanto, a técnica da terceirização do trabalho não traz nenhuma novidade quanto a sua essência; o seu destaque ganho contornos, na atualidade, em função de sua intensidade e dos novos tipos de contratação e utilização do trabalho terceirizado.

[2] Entre elas: serviços de limpeza, jardinagem, vigilância patrimonial, refeitório, etc.

[3] Inicialmente o discurso apresentado foi o de que tudo aquilo que não era atividade essencial/ atividade-fim de uma empresa poderia e deveria ser transferido para terceiros, isto é, para empresas prestadoras de serviços responsáveis, a partir de então, pelas atividades de suporte/atividades-meio da empresa contratante. Contudo, e apegando-se nesta nebulosa distinção do que é atividade-fim e atividade-meio de uma empresa, rapidamente as atividades ditas essenciais foram também transferidas às empresas prestadoras de serviços, isto é, foram também terceirizadas.

[4] Druck, Maria da Graça. Terceirização: (des)fordizando a fábrica. São Paulo: Boitempo, 1999, p. 157.


Núcleo de estudos na PUC-SP tenta superar a apatia da academia

Thiago Barba - membro do Grupo Communards de ação direta e estudos marxistas da PUC-SP

Durante o ano de 2008 a crise capitalista arrastou a sociedade ao desemprego e governos de diversos países à bancarrota. A apatia da academia cada vez mais voltada ao conhecimento técnico e elitista foi incapaz de oferecer respostas aos principais conflitos que a sociedade contemporânea revela. A motivação principal de estudantes dos cursos de Economia, História, Psicologia, Ciências Sociais e Serviço Social além de um professor do Departamento de Política da PUC-SP foram superar esta apatia com conhecimento voltado para a transformação da sociedade, fundaram o Grupo Communards de ação direta e estudos marxistas (batizado de “communards” após uma seqüência de estudos sobre os escritos políticos de Marx em meio à Comuna de Paris, em homenagem aos métodos de organização independente da classe trabalhadora que tomou pela primeira vez o poder em Paris no século XIX). O grupo hoje conta com a experiência de 2009 - ano da fundação de um manifesto e ações de solidariedade com operários da fábrica da Mercedez-Bens - e reinicia suas reuniões em 2010 com a série de seções “Teorias da Resistência: Revoluções do Século XX” a respeito das diversas estratégias políticas adotadas durante alguns dos mais importantes processos revolucionários do século XX. Tendências históricas como o maoísmo, o anarquismo, a guerrilha e também o próprio bolchevismo serão alvo de inflexões pelo grupo que convidam toda a universidade a participar. A perspectiva para as reuniões que ainda contam com algumas dezenas de participantes tende a aumentar, uma vez que em cada curso existe uma necessidade própria de responder problemas que se colocam tanto no campo do conhecimento quanto no social, e que não encontram qualquer respaldo nos temas que normalmente as burocracias acadêmicas financiadas pelas fundações privadas gostam de adotar em seus currículos e aprovar em seus temas de pesquisa.

O marxismo, em especial, é bombardeado por idéias amigas do conformismo ou por aquelas anticomunistas; em contraposição a ele, dá-se lugar ao liberalismo, cada vez mais antiquado diante da crise do livre-mercado e a onda repressiva que gerou no Brasil, e em todo o mundo. Em cada curso superior estas questões aparecem com uma particularidade própria que afeta direta ou indiretamente a vida dos universitários. Foi assim que o Grupo Communards ganhou espaço na PUC-SP e pretende consolidar seus encontros. Hoje surge nos estudantes um claro questionamento do currículo das Ciências Sociais partilhado entre os interesses da burocracia que impede os estudantes de exercer a profissão de professores. Membros do Communards são parte do grupo que está fundando a comissão estudantil de representantes de sala, que será responsável pela reformulação do currículo das Ciências Sociais para a inclusão da licenciatura, no intuito de se organizar de forma independente da direção da universidade. Tanto a participação do Grupo Communards na calourada, em uma grande atividade de repúdio à ocupação militar no Haiti, conjuntamente com centros acadêmicos, quanto sua intervenção nas ações de greve dos Professores de SP e na greve dos operários da Philips do ABC, no intuito de transformar em conhecimento estas experiências, constitui parte de uma prática recorrente de solidariedade operário-estudantil. Este grupo que organiza panfletagens em fábricas, debates na universidade e forma encontros para debater teoria revolucionária é uma pequena experiência, daquela que precisa ser repetida nas diversas universidades pela juventude que existe hoje e tem aquela ânsia, ainda sufocada, de responder aos anos de traição da esquerda e encontrar uma resolução para os problemas sociais do Brasil e do mundo capitalista.


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Marxismo 2009 - luta de classes, marxismo, militância

Nos próximos dias serão realizados, no (IPS) Instituto de Pensamento Socialista Karl Marx -dirigido pelo Partido dos Trabalhadores pelo Socialismo (PTS), membro da Fração Trotsquista-Quarta Internacional, da qual a Ler-qi também faz parte - em Buenos Aires, uma série de debates que compõem o Marxismo 2009 - lucha de classes, marxismo y militancia. Trata-se da uma reedição do Marxismo 2008, dado o grande sucesso da inicitiva do IPS. Serão tratados temas que vão desde os 20 anos da queda do muro de Berlim, o golpe em Honduras, a crise capitalista mundial, os desafios do movimento operário de hoje, e um debate final contrapondo marxismo e movimento operário nos anos 70 e hoje.
Todas os debates serão transmitidos pela TV PTS, às 21 horas, através dos sites http://www.marxismo2009.com.ar/ ou http://www.tvpts.tv/. Estes sites também contém a programação completa. Acompanhe!



sábado, 21 de novembro de 2009

Um olhar sobre 1989: que lições devemos tirar?




Por Edison Salles


[Texto lido por ocasião do debate: "20 anos da derrubada do Muro de Berlim", com Edison Salles e os profs. A. C. Mazzeo e M. Del Roio, ocorrido no campus Marília da UNESP, em 10-11-2009]


Boa noite a todos,
Há diversas formas de abordar o 1989 fazendo ressaltar a enorme importância extra-acadêmica desse tema de reflexão.
Fazendo justiça ao lugar onde estamos (o campus Marília da UNESP), quero pedir licença para anunciar desde já que buscarei dialogar sobretudo com o “autonomismo” entendido como “espírito de época” de nossos dias.
Ainda que só possa retornar a este ponto na parte conclusiva desta exposição, gostaria de deixar de antemão anunciado esse objetivo particular.

Algumas perguntas para iniciar

Em primeiro lugar, quando falamos da queda do Muro de Berlim, é preciso compreender o que foi que caiu e como e por que caiu. Que tipo de regime havia na Alemanha Oriental (RDA)?
Acho que vale a pena retornar a dois pontos anteriores, para responder a esta pergunta, isto é, teremos que nos deter um pouco na análise do caráter social do stalinismo e no papel novo que ele passou a exercer após o fim da 2ª Guerra.
Isso é essencial para evitar aquela tendência do pensamento a “naturalizar” os resultados prontos com que se depara. Ou seja, é preciso perguntar: como chegamos à divisão de um país imperialista de primeira ordem como a Alemanha? De início, é fácil ver que o processo dessa divisão teve muito pouco a ver com as divisões norte-sul que ocorreram no Vietnã e na Coréia – países que foram palco de grandes revoluções anticoloniais e cuja divisão foi subproduto de guerras civis em que o imperialismo interveio maciçamente, tendo a divisão do país como resultado a partir dos acordos que as duas superpotências do pós-guerra firmaram entre si.
Já no caso da Alemanha, o elemento de acordo entre as potências (EUA e URSS) foi muito mais determinante, até porque se impôs por fora e antes que qualquer processo revolucionário pudesse se desenvolver após a derrota de Hitler – e é importante termos em mente que as condições para que a Alemanha atravessasse uma situação revolucionária após 1945 eram totais.
Em todo caso, isso nos leva então ao problema da divisão do mundo em esferas de influência após a 2ª Guerra, o que nos obriga a entender, pelo menos em linhas gerais, tanto o caráter fundamental da época imperialista, como o caráter social do stalinismo. Por falta de tempo para desenvolver o primeiro, me deterei a seguir no segundo tema.

O caráter social do stalinismo

Como sabemos, o stalinismo, ou a burocracia stalinista que governava a URSS (e mais tarde dominou os PCs em todo o mundo) consolidou-se no poder a partir da derrota da revolução mundial, cujo ascenso mais vigoroso se deu na esteira do triunfo bolchevique na Rússia em 1917. Não há tempo aqui para nos determos nesse processo, mas para que tenhamos uma idéia basta afirmar que em toda a Europa central a guerra levou à queda dos velhos impérios e à ação revolucionária das massas: na Hungria chegaram a tomar o poder em 1919, na Bulgária e na Romênia chegou-se muito perto disso... Porém é na Alemanha que o destino da revolução mundial se jogava, e somente nesse país abriram-se processos revolucionários profundos em 1918-1919 e de novo em 1923 (além da famosa ação ultra-esquerdista de março de 1921, que não deixa de ser um sintoma da situação de conjunto). É fácil ver que um novo triunfo nesses países daria uma força invencível para que a revolução seguisse avançando rumo ao Oeste e também no mundo semicolonial.
O isolamento internacional da URSS obrigou-os a enfrentar sozinhos os problemas de uma economia não apenas atrasada em seu conjunto, mas arruinada por vários anos de guerras. Como diria Trotsky, o que faz a burocracia não são as relações socialistas de propriedade, mas antes a escassez econômica. Marx havia dito que sem um regime social de abundância, a luta pelo básico iria retornar após a revolução e, com ela, “toda a velha merda”. Trotsky dirá que a falta do pão leva à formação das filas de racionamento, e quando estas se tornam grandes demais, surge a figura do policial que vigiará a fila e a do burocrata que decidirá para quem vai haver e para que não vai haver pão.


Do "burocratismo" ao Estado totalitário


Resumindo muito todo o processo entre a morte de Lênin (1924) e a situação na entrada da guerra (1939), podemos dizer que já Lênin morreu lutando (em acordo com Trotsky) contra o que ambos denominavam “burocratismo” no Estado soviético. Após sua morte, esses elementos de “burocratismo” avançam cada vez mais para conformar um corpo estável de funcionários, com interesses especiais, separados das massas. Abrindo as portas do Partido para uma enorme camada de arrivistas de todo tipo, e recusando-se a reintroduzir a liberdade de partidos soviéticos na URSS , Stalin tirou proveito da situação e conformou de maneira consciente um sistema de privilégios para uma camada social de dezenas de milhares e centenas de milhares de burocratas apartados dos milhões de operários e camponeses. Não ia tardar muito para que a manutenção desses interesses materiais separados e especiais começasse a se tornar diretamente antagônica a toda iniciativa ou autonomia mínimas por parte dos trabalhadores.
Isso significou que as campanhas caluniosas delirantes de perseguição à Oposição de Esquerda, que cresceram durante a segunda metade dos anos 1920, se transformassem em perseguição generalizada às massas e aos fuzilamentos em massa nos anos 1930. (Aqui vale um parêntese, pois não deixa de ser uma amarga ironia ler hoje em Lukács que ele apoiava até certo ponto as perseguições stalinistas quando eram contra a Oposição, porém rejeitava a utilização dos mesmos métodos contra a classe operária, quando esta foi apenas o desenvolvimento lógico do mesmo processo – afinal os ataques à Oposição já eram ataques à classe – mais uma mostra de que nem toda a inteligência e muito menos toda a erudição de Lukács o ajudaram a jamais compreender a verdadeira natureza do stalinismo – e que dirá combatê-lo corretamente).
Voltando ao tema, antes de chegarmos ao papel do stalinismo no pós 2ª guerra e a criação da RDA, temos que deixar ao menos apontado o impacto internacional do stalinismo. Resumindo, podemos dizer que já desde 1924 a burocracia de Moscou passou a intervir na Comintern e através dela em todos os PCs ao redor do mundo, transformando esses partidos em dóceis correias de transmissão de sua política, e lançando furiosas campanhas de calúnias, perseguições e expurgos de todos os revolucionários que se negavam a se submeter ao novo mando (vale dizer que não foram poucos os comunistas que, sem disporem de informações sobre o que se passava no Partido russo e na URSS, descobriram e aderiram assim ao trotskismo).
São 3 os principais exemplos do que significou essa domesticação dos PCs e posterior transformação destes em verdadeiras ferramentas para impedir a revolução: a revolução chinesa de 1925-1927; a capitulação diante de Hitler em 1933; a revolução espanhola (sobre este último vale a pena ver o excelente filme de Ken Loach, “Terra e Liberdade”).

A 2ª Guerra Mundial

A síntese de tudo isso é que a URSS chega à 2ª guerra novamente isolada do ponto de vista da revolução socialista (desta vez devido ao papel consciente do stalinismo para “organizar as derrotas” da classe operária), e internamente vive uma situação descrita por Trotsky como uma encruzilhada entre uma nova revolução operária que restabelecesse os sovietes, a planificação democrática, a liberdade de partidos soviéticos, e do outro lado, a restauração do capitalismo.
Na guerra, após a bizarra posição inicial de pacto com Hitler que significou entre outras coisas a divisão da Polônia, Stalin termina por se alinhar aos EUA e às “potências democráticas”. Até hoje existe toda uma historiografia (por exemplo, Hobsbawn) que parte disso para negar toda continuidade entre a 1ª e a 2ª guerras, apresentando a última como uma guerra de democracia X fascismo (“guerra de regimes”) e não uma nova guerra imperialista para completar a nova partilha do mundo que a 1ª guerra não conseguiu concluir. Mas o interessante para nós é que após a guerra a política de Stalin será tentar perpetuar os acordos com os EUA (já em 1943 Stalin dissolveu publicamente a Comintern com este fim) e perseguir uma política de “coexistência pacífica” com o imperialismo.
É nesse marco então que se faz a divisão da Alemanha, por sobre qualquer possibilidade de autodeterminação das massas alemãs. A derrota na guerra livrava os alemães do odioso regime nazi, mas os fez deparar-se com o fato consumado de que outras potências, sentadas ao redor de uma mesa, decidiram o futuro de sua nação.
O stalinismo, que no mesmo momento atuava de maneira decisiva para desarmar a resistência das massas, impedir qualquer possibilidade revolucionária nos países centrais, chamando os trabalhadores a darem as mãos aos burgueses na reconstrução do capitalismo europeu, chegava então a um novo extremo, aceitando o plano imperialista de dividir a Alemanha em “protetorados” que garantissem que não voltariam a ocorrer os sucessos de 1918 (a grande revolução que a 1ª guerra pariu).
Nesse sentido, os primeiros anos após 1945 serão marcados por duas espécies de processos bem distintos. De um lado, na Iugoslávia e depois na China, temos situações em que o chefe stalinista local (o marechal Tito, o comandante Mao Zedong) se vê obrigado pelas circunstâncias a tomar o poder, mesmo contrariando Stalin e contrariando suas próprias intenções iniciais. De outro lado, temos os países do Leste europeu, incluída a RDA, onde é o processo de tutela política por funcionários indicados por Moscou, ligado ao aumento da hostilidade imperialista com a Guerra Fria (após 1947), que leva a expropriações “em frio”, ou seja, sem uma participação efetiva das massas. São “Estados operários” no sentido de que ali se aboliu a propriedade privada e se estabeleceu a nacionalização e a planificação central da economia. Mas são também Estados monstruosamente deformados, questão que é ainda agravada pelo fato de que essas “expropriações sem revolução” (propriamente dita) são controladas por uma economia de comando onde se introduz um importante elemento de opressão nacional.

As revoluções operárias contra o stalinismo

Falando muito brevemente, esta situação leva a que sejam justamente esses países do Leste europeu que constituam o palco para as maiores revoluções operárias antistalinistas, ou em certa medida, as maiores revoluções operárias do pós-guerra em geral. Não seria possível analisar minuciosamente cada um dos processos (nem muito menos) mas basta termos em mente as seguintes datas: Berlim 1953, Hungria e Polônia 1956; Polônia e Tchecoslováquia 1968; Polônia 1980. Todos esses processos, e sobretudo os da Hungria e o de Berlim, foram processos em que a centralidade e a iniciativa operária comprovaram a acuidade do programa da IV Internacional (Programa de Transição) sobre o caráter e as reivindicações daquilo que Trotsky chamou de “revolução política” (e cujo alcance ultrapassa e muito as reformas “políticas”, diga-se para evitar falsas discussões) para os países dominados pelo stalinismo. Em particular a enorme atividade dos conselhos operários em 1956 e os chamados dos trabalhadores húngaros a que os russos permitissem que eles construíssem o socialismo por si mesmos (rejeitando explicitamente qualquer possibilidade de restauração do capitalismo) é a expressão máxima de que de fato era necessária uma nova revolução operária para colocar tais países na rota do socialismo. (Também na RDA os operários falavam em um “governo metalúrgico”, e não em retorno ao capitalismo.)
Com isso chegamos à parte final desta exposição.
O destino de todos aqueles processos de revolução política proletária contra as burocracias stalinistas foi um só: foram invariavelmente esmagados em sangue (coisa que Moscou tentava legitimar diante da opinião pública de esquerda no mundo caluniando os processos como intentos restauracionistas patrocinados pelo imperialismo).
A história demonstrou, pelo contrário, que a vitória daquelas revoluções, ajudadas por novos triunfos revolucionários nos países de economia avançada, era a única forma de defender o socialismo e evitar a restauração. Mais ainda, a história mostrou que os verdadeiros restauracionistas se encontravam apenas entre os burocratas, e isso se viu no Leste, na URSS, na China (e hoje se vê em Cuba). Os mesmos chefes que não hesitaram em afogar em sangue as reivindicações democráticas e socialistas das massas, foram os que cederam aos imperialistas e abriram as portas para que os produtos capitalistas minassem por dentro os regimes apodrecidos e as economias estagnadas. Foram os mesmos que depois se apressaram para apropriar-se dos despojos da economia planificada, dando origem ao capitalismo mafioso que se instaurou após fins dos anos 1980.

Das revoluções derrotadas ao ano 1989

No entanto, o título da atividade usa a palavra “derrubada” e não simplesmente “queda” do Muro. E isso é verdade: em 1989 as massas saíram às ruas e sua ação ajudou a pôr fim aos regimes do mal chamado “socialismo real”. Sobre isso, queria apenas chamar a atenção para dois pontos: a) por mais que se estude os processos, não se encontram sinais de que houvesse uma clara intencionalidade naquelas ações no sentido de restaurar a propriedade privada capitalista. Antes disso, o que vemos é que o ódio delas aos regimes opressivos em que viviam estava carente de uma alternativa clara do que fazer; e assim, aqueles regimes totalmente carcomidos por dentro, ruíram de uma vez e disso o imperialismo pôde se aproveitar para, patrocinando arrivistas como Yeltsin, restaurar oficialmente o capitalismo (o que jamais nos poderia fazer esquecer que a restauração é um processo muito mais complexo e profundo, que se iniciou antes e se estendeu além desses momentos); b) o agudo contraste entre aqueles processos abertos em 1989, processos populares, sem direção clara e sem auto-organização efetiva das massas, e os processos citados anteriormente, como a revolução húngara de 1956; ao contrário desta, o 1989 nos diversos países (e mesmo na China, onde foi sufocado pela burocracia e nem por isso a restauração foi menos impiedosa) não possuiu qualquer centralidade operária, e muito menos tendências soviéticas desenvolvidas.
A conclusão de tudo isso é que entramos nos anos 1990 com uma profunda crise de subjetividade operária, com a revolução desaparecendo do horizonte das massas, com uma enorme crise da esquerda e do próprio marxismo. Daí o gancho com o que dissemos no início, pois ao contrário de ceder aos encantos do “autonomismo”, que transforma todo o processo histórico em fonte de visões simplistas e preconceituosas contra o marxismo, contra o partido, contra a ditadura do proletariado, contra a luta de classes; ao contrário disso, o balanço correto dos fatos nos obriga a escovar a história a contrapelo para aprender as suas lições, que nos ensinam justamente a importância da luta de classes e de que os trabalhadores tomem o poder, que nos reforçam a necessidade de construir o partido revolucionário, nacional e internacional.
Obrigado.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Algumas impressões sobre o Seminário István Mészáros e os desafios do tempo histórico

Simone Ishibashi

Em meio a toda propaganda de que a crise capitalista internacional já estaria se fechando, o ciclo de debates intitulado István Mészsáros e os desafios do tempo histórico, promovido pela editora Boitempo em homenagem ao filósofo húngaro, discípulo de Georgy Luckács, tem sido uma brisa fresca para todos os que não se convencem das teorias do descolamento. Ou como mínimo daqueles que desconfiam que uma crise como esta, que inúmeros analistas burgueses compararam com a Grande Depressão de 1929, possa ser resolvida de uma forma assim, digamos, tão pacífica.
Logicamente, esta que vos fala, se insere entre os que enxergam na parcial recuperação financeira da ultra conjuntura mais uma bolha que de fato uma retomada da economia. Afinal, mesmo com o presente de trilhões e trilhões dados aos bancos e especuladores dos EUA e União Européia pelos governos, o máximo que se conseguiu foi evitar a quebradeira generalizada dos bancos. Mas não o crescimento do desemprego, a depressão da chamada “economia real” e as tentativas de descarregar a crise sobre as costas dos trabalhadores mundo afora. Portanto, os debates tem sido interessantes, justamente por reunir aí uma parcela daqueles que apesar de manter muitas diferenças entre si, compartilham de um aspecto fundamental em relação a presente crise: que é profunda e que expressa a própria decadência do capitalismo.
Grata surpresa, entretanto, foi o surgimento em algumas exposições dos temas relacionados à classe trabalhadora e sua ação, à política e à saída a ser dada frente à crise, indo além dos temas conceituais e teóricos. Num seminário que poderia ser mais um ato do divórcio entre teoria e prática tão marcante em nosso país, foi de fato muito interessante ver elementos de maior aproximação, ainda que profundamente incipientes, entre este dois aspectos fundamentais do marxismo (ou pelo menos inquietação, mesmo que teórica, em torno da práxis). Pelo menos no âmbito das preocupações de alguns dos intelectuais participantes. Pena é que os debates se dão hoje, pouco tempo após o encerramento da greve da USP. Se tivessem coincidido teria, sem dúvida alguma, cumprido um papel muito superior, tanto para a elaboração teórica, como para a ação dos que protagonizaram este inicial, mas importante, ato de questionamento da universidade e de defesa das demandas dos trabalhadores, contra a presença da polícia. Mas para que isso se desse, a aproximação entre teoria e práxis já teria que estar muito mais avançada. Atuemos neste sentido.
Agora apenas alguns breves comentários sobre as discussões que pude presenciar.

Estranhamento no século XXI

A sessão da noite de 18/08 dedicada à discussão sobre Trabalho e Alienação contou com a presença de Jesus Ranieri, Ricardo Antunes, Giovani Alves e Ruy Braga. As intervenções retomaram o debate acerca da teoria da alienação em Marx e o estranhamento do trabalho. Foram falas de conjunto interessantes, as várias formas de alienação presentes no capitalismo, como a alienação em relação ao produto do próprio trabalho, a alienação em relação ao próprio gênero humano, e ao próprio trabalho. Um dos aspectos interessantes do debate foi levantado por Ruy Braga quando resgatou o conceito de emancipação como fundamental nos Manuscritos Econômicos Filosóficos de Marx, ao contrário das leituras feitas pela Teoria Crítica que apreendem apenas o aspecto do proletariado como classe estranhada, negando a possibilidade desta transcender tal condição.
Outro aspecto interessante foi o abordado por Ricardo Antunes acerca das novas formas de alienação no século XXI, em que os trabalhadores foram transformados em “colaboradores” na pregação ideológica de algumas das grandes corporações, que busca justamente encobrir o imenso avanço da terceirização e precarização dos trabalhadores. Nomeou muito acertadamente, a meu modesto modo de ver, também a divisão entre luta econômica e luta política como um outro elemento que contribui para tornar mais dificultoso o processo de avanço da consciência da classe trabalhadora.
Frente a estas observações segue aberto o questionamento: o próprio regime sindical brasileiro, - em que muitas vezes até mesmo os sindicatos dirigidos pela esquerda, ao “respeitar” as divisões entre terceirizados e efetivos, ao ter dirigentes que não se submetem ao controle da base, que há décadas tem o privilégio de não trabalhar – não seria um dos elementos que contribuem para a perpetuação da alienação?
Este questionamento, a despeito do caráter interessante do debate, não obteve uma resposta satisfatória, sendo contestado de maneira geral. Sobretudo, por estar na mesa Ricardo Antunes, que segue até que diga o contrário ligado ao PSOL, e Ruy Braga ao PSTU.

Crise estrutural do capital

Na sessão da noite de 19/08 o debate novamente abarcou a crise capitalista atual. Destacou-se a fala de François Chesnai, que polemizando com Mészáros apresentou uma visão do desenvolvimento da crise estrutural no século XX cuja lógica remetia a uma concepção mais próxima a de Lênin quando definiu a irrupção de uma época imperialista, iniciada nos princípios do século XX. Resgatou a crise do capitalista das décadas de 20 e 30, e sua resolução a partir da II Guerra Mundial e a imensa destruição de forças produtivas que significou, e depois a crise da década de 60/70 como a base para o período de valorização de capital a partir dos ataques neoliberais sobre os trabalhadores, início da incorporação da China e da ex-URSS ao capitalismo, e hipertrofia do mecanismo de financeirização da economia. Para Mészáros, grosso modo, a crise estrutural se iniciaria no final dos anos 60 e início na década de 70, tendo como materializações fundamentais a guerra do Vietnã, o Maio Francês de 68, e or processos contra as burocracias do Leste. Neste sentido, pareceu-nos que a visão de Chesnai dá conta de maneira mais profunda das contradições do sistema capitalista mundial, ao ligar as transformações econômicas e os fenômenos políticos no desenvolvimento do século XX.
Outra intervenção interessante foi do economista argentino Jorge Beinstein que ressaltou como esta crise não é mais uma crise cíclica, mas tem um caráter profundo, agravado também pelo processo de decadência histórica do imperialismo norte-americano. Terminou defendendo a auto-emancipação dos pobres, e contraditoriamente reivindicando governos como os de Chávez e Evo Morales.
Questão que não se cala: se Marx já dizia que a emancipação dos trabalhadores será obra dos trabalhadores mesmos, não é chegado o momento de atuarmos conscientemente para que exemplos como o da fábrica argentina Zanon, que depois de 8 anos em que esteve ocupada e funcionando sob controle operário obteve a vitória inédita de ser expropriada na semana passada, sejam os que norteiem a ação da classe trabalhadora e dos povos latino-americanos, ao invés de seguir reivindicando governos pós-neoliberais como Chávez e Evo Morales?

Os debates estão acontecendo na semana de 18/08 a 21/08 na USP, e posteriormente se estenderá para a UNICAMP, CUFSA, UNESP, UERJ, UFRJ, UFRGS, CEFET-MG e UNB. Até o momento já foram realizados quatro debates, em que participaram nomes como François Chesnai, Jorge Bernstein, Ricardo Antunes, Jesus Ranieri, entre outros.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A história escarnecida

Por Edison Salles

Desculpem os leitores a demora para esta postagem, mas algo no caderno Mais! deste domingo (FSP 28/06/09) merece um comentário, pelo menos para não passar em branco. É que a contracapa do caderno traz uma entrevista com o conhecido historiador francês Paul Veyne.

Como isto é um blog, e não o espaço para longas discussões acadêmicas, vou direto ao ponto: a entrevista fornece um belo exemplo do atual estatuto das “ciências do espírito” – o historiador escarnece da história (aliás, da história real, com minúscula, tanto como da História ciência, com maiúscula), e o faz com gosto, ao que parece.

Grande erudito e especialista em Grécia e Roma antigas, nosso sábio reflete muito do irracionalismo ainda em voga, e formula idéias como a de que “a história não tem mais utilidade que a astrologia. É um assunto de pura curiosidade ou, pelo menos, é preciso tratá-la como tal. A história não ensina nada e não permite tirar lições eternas”. Ora, não é pouco, considerando que é dito com autoridade de alguém que conhece mais da história do que 99,99% dos leitores (para ficar num número modesto)...

Como já avisei que pretendo tirar proveito das prerrogativas do “estilo blog” de escrita (ao qual ainda estou me acostumando, e a custo), vou pular a parte de demonstrar o absurdo do rebaixamento da história (que já foi considerada a ciência única do futuro) ao patamar das curiosidades astrológicas, e aproveitar para destacar outro ponto.

É que, se comparamos as passagens do raciocínio desenvolvido por Veyne com as fórmulas ideológicas que depois são apresentadas como conclusão, é impossível não reparar numa pequena distância, um “gap” lógico, que corresponde precisamente ao espaço necessário para extrair uma generalização grosseira e todo-poderosa, de premissas bem mais cuidadosas (ainda que não menos errôneas).

Fico no exemplo da frase já citada (há outros no texto). Reparem que Veyne afirma que “a história não ensina nada”, para agregar imediatamente que ela “não permite tirar lições eternas”. Ora, se ela não ensina nada, qual a necessidade da palavrinha “eternas” para qualificar essas lições que dela não podem ser tiradas? A resposta é clara: com esse acréscimo inocente deixa-se implícito o grotesco da posição contrária, isto é, quem quer que pretenda extrair qualquer lição da história (que nosso erudito já decretou, não ensina nada) só pode estar em busca de "leis eternas”, da verdade absoluta, ou outros absurdos próprios de dogmáticos e afins.

Termino com algo que vai no mesmo sentido; para isso precisarei citar mais um trecho, vamos lá: “A mesma coisa aconteceu com as ciências humanas por volta de 1860. Esse momento corresponde à contestação radical do cristianismo. A partir desse corte, descobrimos que tudo é histórico, e é a partir daí que as ciências humanas se desenvolvem, libertando-se de todos os preconceitos de nossos antepassados. Essa mudança é marcada pelo filósofo Friedrich Nietzsche. Ele foi o primeiro a mostrar que as noções ditas eternas tinham, na verdade, uma história”.

O que essa citação demonstra? É claro que, em primeiro lugar, salta aos olhos que seja Nietzsche nos anos 1860 o responsável por “historicizar” as noções antes tidas como eternas, e não Marx a partir da década de 1840, ou mesmo Hegel desde o início do mesmo século. Mas, para além dessa óbvia distorção – em que o mesmo Nietzsche que tanto contribuiu para destruir qualquer conceito objetivo de história, na linha do “não há fatos, apenas interpretações”, seja apresentada como seu iniciador – para além disso, devemos reparar em algo mais sutil, porém pleno de significação. É que o mesmo Veyne que equiparou a história à astrologia, precisa apoiar-se em certas verdades materialistas (afins ao pensamento marxista) para conferir alguma consistência a seus enunciados. Ou seja, para afirmar a tradição pós-moderna, apresenta-a como portadora de conteúdos que ela mesma se limitou a “pinçar” do arcabouço de uma outra corrente oposta, a saber novamente, o marxismo. Assim, Veyne responde à pergunta seguinte, sobre Foucault, dizendo: “Foucault demonstrou que as convicções, por mais fortes que possam ser, devem ser analisadas dentro de seus contextos históricos”. Ora, pensando na tríade que o próprio Foucault gostava de apresentar como fundadora do pensamento contemporâneo, Nietzsche, Freud e Marx, quem senão este último poderia realmente reivindicar a paternidade daquela noção histórica?


Seguidores